Christine Lagarde afirma que 2025 poderá finalmente ser o ano em que o Banco Central Europeu (BCE) atingirá a sua tão almejada meta de inflação de 2%. "Fizemos progressos significativos em 2024 na redução da inflação", disse , acrescentando que o BCE mantém a sua estratégia de estabilizar a inflação de forma sustentável nesse patamar.
O caminho, porém, não tem sido nada tranquilo. A inflação caiu abaixo de 2% em setembro passado, apenas para voltar a subir nos últimos meses. Lagarde alertou sobre essas flutuações, mas insiste que o plano do BCE está funcionando.
As taxas de juros já foram reduzidas quatro vezes em incrementos de 0,25 ponto percentual, e os economistas preveem mais quatro cortes até junho. 2025 será um ano bastante movimentado para o BCE, com projetos que vão desde um euro digital até a reformulação das notas da zona do euro.
Previsões de inflação: do caos ao controle
A inflação na zona do euro tem sido como jogar dardos de olhos vendados. Lagarde explicou tudo em seu discurso de 16 de dezembro: as previsões foram extremamente imprecisas de 2022 a 2023. A equipe do BCE se baseou em modelos de aprendizado de máquina, que revelaram que a incerteza em torno das previsões de inflação era de quatro a cinco vezes maior do que o normal.
E não foi apenas azar. Os dados recebidos continuavam a provar que as projeções estavam erradas. Então, em setembro de 2022, o BCE apertou o botão de reinicialização. O risco de as expectativas de inflação saírem do controle era muito alto, então eles estabeleceram um prazo rígido para atingir 2%.
A confiança pública era o objetivo — nada de adiar a linha de chegada. E funcionou. No final de 2023, seis previsões consecutivas indicavam que a inflação retornaria à meta em 2025. Melhor ainda, as projeções agora são muito mais confiáveis. Lagarde destacou que os níveis de incerteza voltaram aos patamares pré-pandemia.
Dados reais comprovam isso. As previsões de inflação para 2023 tornaram-se mais precisas, especialmente para a inflação geral. As projeções de inflação subjacente alcançaram as expectativas em 2024, enquanto pesquisas domiciliares e indicadores de mercado mostraram expectativas de inflação em torno de 2% para os próximos três anos.
O que está por trás dos números?
Desde a disparada dos preços da energia até o caos na cadeia de suprimentos, cada interrupção persistiu, dificultando o controle da inflação. Esses não são problemas passageiros — são desafios estruturais.
Para lidar com isso, o BCE se apoiou em uma estrutura com três pontos de foco: a perspectiva da inflação, a dinâmica da inflação subjacente e a eficácia das políticas monetárias.
Eis o resultado: as medidas da inflação subjacente — o que impulsiona a tendência de longo prazo — agora se aproximaram das médias históricas. A maioria dos indicadores situa-se entre 2% e 2,8%, uma faixa que Lagarde considera um bom sinal.
O Componente Persistente e Comum da Inflação (PCCI) do BCE, um indicador fundamental, tem se mantido estável em 2% desde o final de 2023. Mesmo assim, alguns números persistem. A inflação doméstica, impulsionada principalmente pelo setor de serviços, está mais alta, rondando os 4%.
Lagarde apontou a reprecificação realizada no início do ano como a culpada, mas observou uma queda acentuada no ritmo da inflação no setor de serviços. O crescimento salarial também está arrefecendo. O tracsalarial do BCE mostra o crescimento salarial caindo de 4,8% em 2024 para uma previsão de 3% em 2025, nível que se alinha com a meta de inflação de 2%.
O que está tirando o sono dos formuladores de políticas?
Depois, há a economia. Ela está tirando o sono de Lagarde e sua equipe. As previsões de crescimento para a zona do euro continuam diminuindo. Em junho de 2023, o BCE esperava que a região crescesse 1,5% em 2024. Agora, essa previsão caiu para apenas 0,7%. Grande parte do problema reside no fraco investimento interno.
Apesar do aumento da renda real e do alto nível de emprego, as famílias estão poupando mais do que gastando. Lagarde chamou isso de resquício da alta inflação dos últimos anos.
A incerteza geopolítica é outro fator imprevisível. Se os Estados Unidos, o maior mercado de exportação da zona do euro, adotarem medidas protecionistas sob odent do presidente Trump, o crescimento provavelmente será afetado. Além disso, os exportadores europeus são vulneráveis às mudanças na confiança no comércio global, o que torna essa situação uma faca de dois gumes para os formuladores de políticas.

