A Rússia exigirá que todos os celulares e tablets vendidos no país venham com um aplicativo de mensagens apoiado pelo governo, chamado Max, pré-instalado a partir de 1º de setembro.
O governo russo anunciou na quinta-feira que o Max, um aplicativo de mensagens desenvolvido pela empresa de tecnologia VK, controlada pelo Kremlin, entrará para a lista de aplicativos obrigatórios instalados em todos os novos dispositivos vendidos no país. Autoridades afirmaram que a plataforma permitirá o envio de mensagens, chamadas de vídeo, pagamentos móveis e acesso a serviços estatais.
A mídia estatal rejeitou as acusações de que o aplicativo funciona como spyware, alegando que o Max requer menos permissões do que concorrentes ocidentais como o WhatsApp ou o Telegram. No entanto, publicações de notícias locais relataram a integração do aplicativo com sistemas governamentais e sua capacidade de continuar operando mesmo após tentativas de desinstalação por parte dos usuários.
Críticos levantam preocupações sobre vigilância
Analistasdent e ativistas de direitos digitais afirmam que o Max pode ser confundido com uma ferramenta de vigilância do Estado russo. O canal do Telegram Red Binder, que reporta sobre assuntos da internet, alegou que o Max coleta uma grande quantidade de dados pessoais, incluindo registros de chamadas, criptomoedas, contas bancárias, histórico de compras e até detalhes de cafés visitados.
Segundo o canal do Telegram, os dados são acessíveis ao Serviço Federal de Segurança (FSB) e a agentes do Kremlin, que podem usar o Max para monitorar em tempo real as comunicações e os movimentos dos cidadãos. A plataforma foi comparada ao WeChat chinês, supostamente usado pelas autoridades chinesas para monitorar o cotidiano e para vigilância estatal.
O jornalista da oposição russa Andrei Okun chamou o Max de "Gulag Digital" do Kremlin. Escrevendo para o site de notícias Republic, Okun afirmou que o aplicativo criará um "espaço estéril" onde as autoridades exercerão controle total sobre o lazer, os pensamentos e as motivações das pessoas.
O lançamento do Max ocorre após a aprovação de uma lei pela Duma Estatal russa em junho, que exige a criação de um aplicativo de mensagens nacional vinculado a serviços públicos. No entanto, uma reportagem do site Meduza sugere que o VK já havia desenvolvido um aplicativo semelhante anteriormente, sob instruções diretas dodent Vladimir Putin.
O aplicativo apresenta um logotipo azul e branco e já foi baixado por cerca de 18 milhões de usuários, segundo a VK. A empresa admite que partes do Max ainda estão em fase de testes, mesmo enquanto o governo se prepara para tornar sua instalação obrigatória em todo o país.
As autoridades também afirmaram que, a partir de 1º de janeiro de 2026, todas as smart TVs vendidas na Rússia virão com o aplicativo LIME HD TV pré-instalado, um aplicativo que oferece acesso gratuito aos canais de televisão estatais.
Pressão sobre os rivais ocidentais
A decisão de pré-instalar o Max em dispositivos móveis coincide com novas restrições a plataformas de mensagens estrangeiras. No início deste mês, a Rússia começou a limitar algumas chamadas feitas pelo WhatsApp e Telegram, acusando as empresas de se recusarem a compartilhar dados com as autoridades durante investigações de fraude e terrorismo.
O WhatsApp, pertencente à empresa americana Meta, alcançou 97,3 milhões de usuários na Rússia em julho, segundo a Mediascope. O Telegram, fundado pelo empresário russo Pavel Durov, mas com sede no exterior, atingiu 90,8 milhões de usuários no mesmo período. O terceiro aplicativo mais popular foi o VK Messenger, com 17,9 milhões de usuários.
O WhatsApp acusou Moscou de tentar cortar o acesso dos russos a comunicações seguras, enquanto o Telegram afirmou que continua combatendo usos nocivos de sua plataforma.
Autoridades russas sinalizaram que o WhatsApp pode em breve enfrentar uma proibição total. Anton Gorelkin, vice-presidente da Comissão de TI da Duma Estatal, afirmou no início de agosto que o WhatsApp deveria se preparar para sair do mercado russo. O Facebook e o Instagram, pertencentes à Meta, foram banidos na Rússia em 2022.
Quanto ao Telegram, por enquanto, o governo russo parece não ter objeções. Durov negou cooperar com os serviços de segurança do Kremlin, embora a inteligência ucraniana afirme que autoridades russas já receberam instruções para usar o Max para assuntos oficiais.
O Ministério do Interior russo insiste que o Max é "menos perigoso" que o WhatsApp ou o Telegram, acrescentando que é menos intrusivo.

