A Europa está atrasada na corrida pela formação de estoques. Enquanto a China constrói muros em torno de seu suprimento de metais e os EUA despejam um cheque de US$ 1 bilhão, Bruxelas ainda está planejando uma consulta.
Autoridades da UE afirmam que a consulta será lançada antes do final do ano, com o objetivo de decidir quais minerais comprar, como financiá-los e quem terá o controle.
Entretanto, Pequim acaba de reforçar o controle sobre as exportações de terras raras, alertando as empresas estrangeiras para que não façam estoques, a menos que queiram o fornecimento ser interrompido.
A Comissão Europeia anunciou esta semana que criará um novo “centro de matérias-primas críticas” no próximo ano para monitorar, comprar e estocar minerais essenciais. Ursula von der Leyen declarou aos parlamentares: “uma crise no fornecimento de matérias-primas críticas não é mais um risco distante”
Mas a Europa praticamente não tem controle sobre o seu fornecimento. Ela obtém de 80 a 90% desses minerais da China. Isso inclui grafite, cobalto, gálio e outros usados em turbinas eólicas, mísseis, caças e radares. A guerra comercial do Ocidente com a China está se intensificando, e a Europa está lá, desprotegida.
Os EUA gastam, a China restringe, a Europa aguarda
Os EUA lançaram uma onda de compras de minerais críticos no valor de US$ 1 bilhão, priorizando estoques militares e energia limpa. A China, após duas décadas de domínio, está indo na direção oposta, reduzindo a oferta e acumulando o que possui.
Europa? As conversas continuam. O comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, conversou por telefone com o ministro do Comércio da China, Wang Wentao, na terça-feira. A conversa girou em torno das novas restrições chinesas às terras raras e como elas afetarão as empresas europeias.
Bruxelas ameaçou com medidas comerciais, mas precisa da maioria dos 27 Estados-membros para agir. E boa sorte em conseguir isso.
Albéric Mongrenier, diretor executivo da Iniciativa Europeia para a Segurança Energética, afirmou que a dependência da Europa em relação à China torna urgente a criação de um estoque. "Um estoque é uma reserva que poderia ajudar a estabilizar os preços e tranquilizar os investidores no setor de minerais críticos", disse ele.
Alguns países não estão esperando. A Alemanha investirá € 1 bilhão por meio de seu banco de desenvolvimento KfW para romper laços com a China. A França lançou um fundo de investimento de € 500 milhões para impulsionar seu setor metalúrgico local. A Comissão Europeia também quer usar a ajuda ao desenvolvimento de forma mais agressiva, vinculando-a a acordos de mineração.
Mas os críticos dizem que a Europa corre o risco de aumentar sua dependência da China ao comprar mais do mesmo fornecedor apenas para formar uma reserva. Um executivo do setor de mineração afirmou que o primeiro passo deveria ser extrair e processar mais minério internamente.
Mas isso não é fácil. A Europa quase não tem minas em operação. Instalações de processamento de metais? Menos ainda. E construí-las leva anos. Pior ainda, alguns minerais, como cobalto e grafite, são necessários em quantidades tão pequenas para a defesa que sua extração não é lucrativa. Portanto, mesmo que os militares precisem deles, ninguém está disposto a minerá-los.
Problemas de armazenamento e planejamento lento prejudicam o andamento do projeto
Armazenar o material também não é simples. Paul Lusty, da Fastmarkets, afirmou que o hidróxido de lítio dura apenas cerca de seis meses armazenado, a menos que seja mantido em perfeitas condições. A maioria dos investidores não quer correr o risco nem arcar com o custo de manter o metal parado.
A Europa possui reservas de petróleo, mas não estoques de minerais. Os EUA, por sua vez, estocam minerais com usos militares, e a OTAN está considerando assumir um papel maior na segurança de minerais de dupla utilização à medida que os gastos com defesa aumentam.
O enviado holandês Allard Castelein admitiu que “mudanças são necessárias”. Os Países Baixos estão a desenvolver um programa piloto para mapear os materiais utilizados nas novas fragatas da sua marinha — desde sistemas de armamento a radares.
Esses dados ajudarão a construir reservas nacionais para que possam sempre afirmar: "Temos uma fragata totalmente operacional". Castelein também está mapeando a cadeia de suprimentos para identificar as lacunas. Vários funcionários da UE afirmam que o modelo japonês, iniciado em 1983, pode valer a pena ser copiado.
O homólogo francês de Castelein,enjGallezot, afirmou que escolher em quais minerais focar é uma tarefa complexa. "Alguns metais com baixa criticidade hoje podem se tornar críticos nos próximos 20 anos, e para alguns que já são críticos hoje, temos soluções que serão implementadas em poucos anos", disse ele.
Até agora, a Europa fala muito, mas continua com prateleiras vazias.

