O deficomercial dos EUA em bens caiu drasticamente em abril, muito mais do que qualquer um esperava, depois que as empresas pararam de importar mercadorias estrangeiras em massa antes do adiamento das tarifas.
O Departamento de Comércio informou na sexta-feira que o déficit comercial diminuiu 46%, chegando a US$ 87,6 bilhões. As importações caíram para US$ 276,1 bilhões, uma queda de US$ 68,4 bilhões em apenas um mês. Enquanto isso, as exportações registraram um pequeno aumento, de US$ 6,3 bilhões, totalizando US$ 188,5 bilhões.
O motivo para os números recordes de março foi o pânico generalizado para antecipar as compras de mercadorias antes da entrada em vigor das tarifas mais altas. As empresas inundaram os armazéns com importações antes dos prazos. Essa corrida fez com que o deficomercial disparasse.
Agora, com o adiamento das datas das tarifas, essa onda recuou — por enquanto. Mas as empresas não estão exatamente relaxando. O cronograma ainda está uma bagunça.
Atrasos nas tarifas prolongam a incerteza
A Casa Branca adiou a maior parte das próximas tarifas para julho, enquanto as tarifas sobre produtos chineses foram adiadas para meados de agosto. Isso deixou as empresas em uma situação de incerteza. Vários economistas afirmam que mais antecipação de importações ainda pode ocorrer, já que ninguém sabe o que acontecerá após o término da suspensão de 90 dias. Todos estão pisando em ovos.
E então vieram os tribunais. Na quarta-feira, um tribunal comercial dos EUA suspendeu a maior parte das tarifas dodent Donald Trump, alegando que ele não tinha poder para implementá-las da maneira como fez. Essa decisão foi anulada no dia seguinte por um tribunal federal de apelações, que restabeleceu temporariamente a vigência das tarifas.
Agora, as regras mudam a cada 24 horas e as empresas estão no meio de uma verdadeira partida de tênis legal. O impacto econômico já se fez sentir. deficomercial recorde de março teve um papel importante na queda anualizada de 0,2% do PIB no primeiro trimestre. É matemática simples: quando as importações disparam e as exportações não acompanham, o crescimento desacelera.
Novo projeto de lei visa aplicar penalidades fiscais a dinheiro estrangeiro
Enquanto a polêmica das tarifas continua, a equipe de Trump está impulsionando uma nova estratégia para pressionar os investidores estrangeiros — desta vez, por meio de impostos. O projeto de lei "One Big Beautiful Bill Act", aprovado na semana passada pela Câmara dos Representantes, inclui mudanças drásticas na forma como o capital estrangeiro é tratado nos EUA. Mas ainda precisa da aprovação do Senado.
Incluída nesse projeto de lei está a Seção 899, uma disposição que dá aos EUA o poder de cobrar impostos de países que consideram injustos. Isso significa que governos como o da França, que impôs um imposto de 3% sobre a receita digital de empresas de tecnologia como Google, Apple, Facebook e Amazon, podem sofrer consequências. A Alemanha, que estaria considerando uma versão de 10%, também pode estar na mesma lista.
George Saravelos, chefe global de pesquisa cambial do Deutsche Bank, afirmou em nota divulgada na quinta-feira que isso permitiria aos EUA transformar uma guerra comercial em uma guerra de capitais. A Seção 899 permitiria ao governo tributar ativos americanos detidos por estrangeiros como forma de obter o que deseja em negociações econômicas.
George alertou que essa tática "desafia a natureza aberta dos mercados de capitais dos EUA" e reduziria os retornos dos títulos do Tesouro americano para investidores internacionais. Ele estimou que o rendimento dos títulos do Tesouro poderia cair em quase 100 pontos-base, o que os tornaria muito menostrac. Isso é um problema, já que os Estados Unidos dependem desse investimento para cobrir seu defiduplo — tanto o déficit comercial quanto o déficit orçamentário.
Beat Wittmann, presidente da Porta Advisors na Suíça, não suavizou a situação. "É muito ruim", disse ele. "Isso é enorme — é apenas uma peça no plano geral e está totalmente de acordo com o que esta administração representa."
Wittmann afirmou que, no fim das contas, não se trata de opiniões. "O juiz final não são as nossas opiniões, mas sim o mercado de títulos", acrescentou. E, segundo ele, ultimamente, se os investidores buscam segurança, estão optando pelos títulos alemães (Bunds) em vez dos títulos do Tesouro americano.

