O mercado de títulos do governo japonês está fora de controle e arrastando os Estados Unidos para o mesmo problema. A volatilidade dos títulos do governo japonês dobrou em apenas cinco meses, atingindo um recorde de 4,02%, segundo dados da CNBC.
Os rendimentos dispararam rapidamente — o rendimento dos títulos com vencimento em 30 anos está agora em 3,08%, quase 75 pontos base acima do início deste ano, e muito próximo do seu recorde desde que esse título foi emitido pela primeira vez em 1999.
Na semana passada, o rendimento dos títulos de 10 anos chegou a atingir brevemente 1,60%, um patamar que o mundo não via desde a crise financeira de 2008. Ao mesmo tempo, crescem os rumores sobre uma possível redução da classificação de crédito, o que afetaria gravemente a já frágil economia japonesa.
Esses números não são apenas assustadores no papel. Eles mostram que todo o mercado de títulos japonês, o terceiro maior do planeta, está sob uma pressão sem precedentes em décadas. O título do governo japonês com vencimento em 30 anos ultrapassou recentemente a marca de 3,2%, algo inédito.
O rendimento dos títulos de 10 anos está agora confortavelmente acima de 1,58%, um número que soaria como fantasia há pouco tempo. Mas nada disso se deve a um bom desempenho da economia. É resultado do pânico, causado pela queda do iene, pelos altos preços da energia e por uma completa quebra de confiança no Banco do Japão.
Investidores abandonam o Banco do Japão e assumem o controle do mercado
O Banco do Japão tentou, durante anos, controlar as taxas de juros de longo prazo por meio de sua política de controle da curva de rendimento, mas, neste momento, essa política está entrando em colapso. Os investidores não estão mais esperando que o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, e sua equipe ajam; eles começaram a precificar o risco por conta própria.
O Japão agora enfrenta uma situação sem saída. Se o banco central tentar estabilizar os rendimentos dos títulos, o iene se desvalorizará ainda mais. Mas se tentar proteger a moeda, os rendimentos dos títulos subirão ainda mais.
E a dívida pública do Japão não é pequena. A relação dívida/PIB do país é superior a 260%, a mais alta entre as economias desenvolvidas. Isso o torna extremamente vulnerável ao aumento das taxas de juros. Enquanto isso, o iene está sendo negociado próximo a 150 por dólar americano, o nível mais baixo em mais de 30 anos.
O Banco do Japão está em apuros. Sua estratégia mais provável é intervir discretamente no mercado por meio de compras indiretas, injetar liquidez para aliviar as tensões e fazer declarações públicas vagas para manter os investidores na expectativa. Mas a verdade é que o Banco do Japão perdeu o controle do mercado.
Talvez você se lembre do verão de 2024, quando um súbito desmantelamento do carry trade em ienes, prática na qual investidores tomam ienes emprestados para financiar posições em ativos de maior rendimento em outros mercados, desencadeou um pânico generalizado. Os mercados globais despencaram. O índice S&P 500 caiu 8,5%, enquanto bitcoin despencou 15% em um único dia. Tudo porque os investidores se desfizeram do iene simultaneamente.
Japão se desfaz de títulos do Tesouro americano enquanto o Fed enfrenta pressão
O Japão não é um mero participante aqui, pessoal. É o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro dos EUA, com mais de US$ 1,13 trilhão investidos em dívida americana. Por décadas, bancos e fundos de pensão japoneses têm sido compradores confiáveis de títulos americanos, mantendo os custos de empréstimo dos EUA baixos.
Mas, com os rendimentos subindo no mercado interno e o iene em queda livre, os investidores japoneses estão sendo levados a retirar seus investimentos. A lógica é simples: por que comprar títulos do Tesouro e sofrer uma desvalorização cambial quando os títulos locais repentinamente pagam mais? Entendeu?
Isso é perigoso para os Estados Unidos. Menos compradores japoneses significam menos demanda por títulos do Tesouro, especialmente os de longo prazo que financiam os planos de gastos inflados do governo. Sem essa demanda, os rendimentos subirão, o que torna mais caro para os EUA tomarem empréstimos. Isso também adiciona caos aos mercados globais de títulos, à medida que os investidores se esforçam para se ajustar à mudança repentina nos fluxos de capital.
Donald Trump acaba de retornar ao Salão Oval, e Washington já está tentando lidar com o aumento da dívida e da inflação.
Entretanto, a Teoria Monetária Moderna (a ideia de que os países podem imprimir dinheiro indefinidamente sem pagar um preço) também está ruindo. O Banco do Japão está mostrando ao mundo o que acontece quando os investidores deixam de acreditar. O Federal Reserve não pode mais contar com a compra infinita de títulos, não sem correr o risco de inflação, desvalorização do dólar e perda total da confiança.

