O mercado de IPOs na Europa praticamente parou. A Klarna, gigante sueca de pagamentos e uma das fintechs mais valiosas da Europa, nem sequer está considerando as bolsas de valores locais. Em vez disso, vai direto para Nova York.
É aí que está o dinheiro, e é para lá que outros também estão indo. Até agora, neste ano, 153 empresas abriram capital nos EUA, arrecadando US$ 17,7 bilhões. Europa? Apenas 57 negócios. US$ 5,5 bilhões. Só isso.
Segundo reportagem da CNBC, essa diferença não deve diminuir tão cedo. Tommy Rueger, co-diretor global de Mercados de Capitais de Ações do UBS, afirmou que a Ásia tem estado "incrivelmente ativa este ano" e lidera o mercado juntamente com a América do Norte.
Tommy afirmou que existem "focos de força" na Europa, mas admitiu que o verdadeiro dinamismo está fora do continente. Kevin Foley, chefe global de Mercados de Capitais do JP Morgan, classificou o mercado de IPOs europeu como "moderado", enquanto mencionou que os EUA já têm mais de 30 IPOs previstos para o restante do ano.
Investidores abandonam os longos prazos de IPO em favor de fusões e aquisições mais rápidas
As empresas na Europa estão cansadas de esperar. O processo de IPO demora muito, entre três e doze meses, e os riscos são elevados. Jonathan Murray, co-diretor de ECM para a região EMEA na Mizuho, afirmou : "O processo de IPO é bastante longo e, durante esse processo, existe o risco de mercado."
Falando de Tóquio, onde está apresentando empresas europeias a investidores asiáticos, Jonathan destacou a rapidez com que os negócios podem fracassar. Um dia ruim nos mercados ou uma queda brusca nas ações de uma empresa concorrente pode destruir as avaliações da noite para o dia.
E o mercado nem sequer está apresentando um bom desempenho. O índice MSCI França subiu apenas 4,5% este ano. Outros índices europeus só começaram a se recuperar em agosto, após despencarem no início da primavera. O estrategista do Barclays, Emmanuel Cau, afirmou que, enquanto os EUA, a China e o Japão atingem novos recordes, a Europa está estagnada; sem impulso da inteligência artificial e com muito ruído geopolítico. É um peso morto.
É por isso que as empresas de private equity estão evitando IPOs por completo. Elas estão optando por fusões e aquisições (M&A), que são mais limpas, rápidas e previsíveis. Jonathan disse que os patrocinadores de private equity não gostam de abrir o capital de uma empresa a menos que possam se desvincular totalmente dela. Se ainda detiverem ações após o IPO, ficam responsáveis por tudo o que acontecer em seguida. E, neste mercado, esse não é um risco que queiram correr.
O mercado de IPOs desacelera, mas o nível de exigência de qualidade permanece alto
Os mercados públicos estão novamente exigentes. Nem tudo é aprovado. Luca Erpici, co-diretor de ECM para a região EMEA na Jefferies, afirmou que as coisas não são como em 2021. O mercado está aplicando um "filtro de qualidade". Se uma empresa não atender a esse filtro, ela fica de fora.
“Estamos em um mercado organizado”, disse Luca. Ele acrescentou que, embora o patamar ainda seja alto, alguns grandes negócios podem ser fechados no quarto trimestre e que “umatroncarteira de projetos está se formando para 2026 e 2027”
Mas o filtro está acabando com os IPOs de private equity. Luca explicou que a maioria das empresas apoiadas por private equity não consegue gerar retornos estáveis a cada trimestre, e os mercados públicos exigem isso. Se uma empresa não consegue fazer isso, não tem por que abrir capital. É mais seguro permanecer privada.
Uma das raras exceções foi a Galderma, uma empresa de cuidados com a pele pertencente à EQT. Ela abriu seu capital com sucesso em 2024, e suas ações subiram mais de 125% desde então. A EQT deu sequência a esse sucesso vendendo mais 5,3 bilhões de francos suíços (cerca de US$ 6,6 bilhões) em ações este ano. Portanto, sim, boas empresas ainda podem ter sucesso. Só que não há muitas delas preparadas para isso.
Entretanto, o número de IPOs em andamento em todo o mundo aumentou 2% no primeiro semestre do ano em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Datasite. Isso indica que o fluxo de negócios pode aumentar nos próximos seis a nove meses — mas a maior parte desse crescimento não virá da Europa.
Dinheiro e empresas estão migrando para os EUA. Andrejka Bernatova, que recentemente levou a empresa de criptomoedas The Ether Machine à bolsa de valores em um acordo SPAC de US$ 2,5 bilhões, explicou o porquê: “Liquidez é fundamental. Se você não tem liquidez para negociação, ser uma empresa de capital aberto não é tão valioso.” A Europa não tem isso. Os EUA têm, e é isso que importa.
Bernatova também apontou para outra questão: a regulamentação. Nos EUA, a NYSE e a Nasdaq estão sujeitas a um único conjunto de regras, o da SEC. Na Europa, cada país tem seu próprio órgão regulador. É um processo confuso, lento e detestado pelos investidores. Isso não é bom quando setores promissores como inteligência artificial e energia renovável precisam de bilhões em capital. Ela afirmou que essas empresas não têm outra opção a não ser recorrer aos EUA se quiserem captar recursos significativos.
Mas enquanto os banqueiros debatem isso, os vendedores já se foram. O fluxo de IPOs na Europa não está apenas diminuindo, está secando.

