O governo Biden impôs as sanções mais duras até o momento contra a Rússia, visando o valioso setor energético de Moscou e sua evasiva "frota paralela" de petroleiros.
O Gabinete Oval dos Estados Unidos apresentou um pacote de medidas destinadas a prejudicar diretamente a capacidade da Rússia de financiar sua guerra na Ucrânia. Autoridades do Tesouro classificaram essas ações como as "mais agressivas" desde o início da invasão, com mais de 180 petroleiros incluídos em listas negras, juntamente com as gigantes petrolíferas russas Gazprom Neft e Surgutneftegas.
Durante anos, odent Biden evitou um ataque direto às exportações de energia da Rússia, temendo que os preços globais do petróleo disparassem e deixassem os americanos com contas de gasolina ainda mais caras. Mas, com a inflação em desaceleração e a oferta global de petróleo apresentando perspectivas mais saudáveis, o governo decidiu atingir Putin onde mais dói: seus lucros com o petróleo.
A repressão à frota paralela da Rússia
Se há algo que a Rússia de Putin sabe fazer, é burlar sanções. É aí que entra a frota clandestina — uma rede obscura de petroleiros antigos, muitas vezes registrados em países desconhecidos, criada para contrabandear petróleo bruto russo pelo mundo, desafiando as sanções ocidentais.
Para o Kremlin, essa frota clandestina tem sido uma tábua de salvação, transportando petróleo para mercados como a China e a Índia, apesar das restrições globais. Agora, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos deixou claro que essa farra acabou.
Para tornar a vida ainda mais difícil para Putin, as sanções também atingiram projetos de gás natural liquefeito e atores-chave no ecossistema energético russo, desde engenheiros a financistas.
Preços do petróleo, mercados globais e a dor de cabeça da próxima administração
O efeito das sanções de Biden foi sentido quase imediatamente. Os preços do petróleo dispararam na sexta-feira, enquanto os mercados se preparavam para possíveis interrupções no fornecimento. Some-se a isso as condições climáticas extremas nos EUA e os incêndios florestais em curso na Califórnia, e fica fácil entender por que os investidores estavam apreensivos.
No entanto, a equipe de Biden insiste que o mercado global de petróleo está estável o suficiente para resistir à crise. O momento escolhido para a imposição dessas sanções, porém, é curioso por outro motivo.
Veja bem, esses caras estão prestes a passar o bastão para o governo Trump, e eles sabem que isso provavelmente tensionaria ainda mais o relacionamento entre ele e Putin, dificultando que eles se entendessem da maneira que desejassem.
Quando a guerra começou em fevereiro de 2022, os economistas previram um colapso total da economia russa. Isso não aconteceu. Os altos preços do petróleo e acordos comerciais estratégicos com países como a Índia e a China mantiveram os cofres da Rússia cheios, pelo menos por enquanto.
Mas as novas sanções de Biden vão além das tentativas anteriores. Para Putin, isso representa bilhões em receita perdida todos os meses.
A realidade econômica da Rússia
A economia da Rússia sofreu um grande baque desde o início da guerra. Em 2022, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu uma queda de 8,5% no PIB russo. Mas, ao final do ano, o declínio real foi de apenas 2,1%. Por quê? Porque os preços altíssimos da energia amorteceram o impacto.
Avançando para 2023, a Rússia conseguiu registrar uma taxa de crescimento de 2,2%. Parece impressionante até que se analise mais a fundo. Esse crescimento veio da venda de petróleo e gás com descontos para mercados não ocidentais, como China e Índia.
Entretanto, setores como tecnologia e defesa estavam em frangalhos, e os investimentos de longo prazo secaram mais rápido do que uma poça no deserto do Saara. Em 2024, as rachaduras na estrutura eram impossíveis de ignorar. A inflação disparou para 15%, e o rublo despencou em relação às principais moedas.
As empresas enfrentavam dificuldades, com mais de 200 centros comerciais à beira da falência. Transportadoras de carga, que movimentam mercadorias por todo o maior país do mundo, alertaram para a possibilidade de insolvência. O Departamento do Tesouro dos EUA estimou que as sanções reduziram em 5% o potencial de crescimento do PIB da Rússia.
Para os russos comuns, o sofrimento é real. Os preços ao consumidor estão altíssimos, os salários estagnados e as perspectivas de emprego são sombrias. Mais de um milhão de pessoas — muitas delas jovens profissionais — fugiram do país desde o início da guerra.
As elites empresariais estão fartas de políticas que priorizam os gastos militares em detrimento da lucratividade. Segundo relatos, fontes internas do Kremlin reclamam dos custos insustentáveis da guerra. Até mesmo os apoiadores leais começam a questionar a estratégia de longo prazo de Putin.
Entretanto, a população está cada vez mais inquieta. Anos de estagnação econômica, aliados ao aumento dos preços, cobraram seu preço. O descontentamento público está fervilhando sob a superfície, e é apenas uma questão de tempo até que exploda.

