Nos últimos três anos, a Rússia teve os Estados Unidos como seu principal inimigo, atacando sua liderança, economia e influência a cada oportunidade. Moscou retratou Washington como uma força imperialista que tenta dominar a ordem global, e Washington, por sua vez, aproveitou todas as oportunidades para pintar a Rússia como uma potência em declínio.
As sanções dos EUAripplea economia da Rússia, cortando o comércio, bloqueando o acesso financeiro e punindo setores-chave. Mas, de repente, tudo está mudando.
Com odent Donald Trump de volta à Casa Branca e as primeiras conversas reais entre Rússia e EUA desde o início de 2022, o Kremlin está dando uma guinada completa. Após anos de hostilidade, Vladimir Putin está abandonando a postura de confronto e se engajando em negociações.
Isso ocorre, naturalmente, após Trump ter entrado em conflito público com odent da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, chamando-o de "ditador" na quarta-feira. Poucas horas depois, Putin quebrou o silêncio, confirmando que Moscou agora está se engajando seriamente com Washington.
A Rússia reabre negociações em meio a desavenças entre Trump e Zelenskyy
A Rússia e os Estados Unidos se reuniram em Riad, na Arábia Saudita, na terça-feira, no primeiro encontro formal entre autoridades desde o início da guerra na Ucrânia. A reunião, que ocorreu sem a participação da Ucrânia, foi apresentada como um passo rumo ao fim do conflito. Autoridades do Kremlin responderam positivamente de imediato, e Putin declarou à imprensa na quarta-feira que:
“Considero as negociações na Arábia Saudita excelentes, houve um resultado. Em geral, pelo que me disseram, o clima era muito amigável. Do lado americano, havia pessoas completamente diferentes, abertas ao processo de negociação sem qualquer viés, sem qualquer preconceito em relação ao que foi feito no passado.”
Putin elogiou a "moderação" de Trump, acusando os líderes europeus de histeria por terem sido excluídos das discussões. Ainda ontem, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que as conversas não se limitavam à Ucrânia, mas visavam a revitalização das relações entre EUA e Rússia como um todo.
Embora a Ucrânia tenha sido deixada de lado, a China estava prestando muita atenção. Um acordo de paz na Ucrânia transferiria o foco militar dos Estados Unidos inteiramente para Pequim — algo que odent Xi Jinping está se esforçando tanto para evitar.
China se prepara para o impacto com a mudança de foco dos EUA
Pequim tem se mantido distante do governo Trump, evitando confrontos diretos enquanto lida com uma grave crise imobiliária, crescimento econômico fraco e tarifas comerciais americanas. A última coisa que a China deseja é uma atenção militar americana em larga escala.
Embora a China tenha recebido bem as negociações entre EUA e Rússia, Pequim está se preparando para o que vem a seguir. A equipe de Trump deixou claro que, uma vez resolvida a questão da Ucrânia, Washington voltará sua atenção para conter a China.
O secretário-geral do Pentágono, Pete Hegseth, e o filho de Trump, Donald Trump Jr., deixaram claro que a China é o próximo alvo. Ao contrário do que aconteceu durante o primeiro mandato de Trump, Xi está adotando uma postura cautelosa. Pequim evitou uma resposta agressiva às tarifas de 10% impostas por Trump, optando por uma abordagem mais conservadora.
Xi Jinping chegou a se encontrar com Jack Ma, do Alibaba, esta semana, sinalizando o fim da repressão tecnológica da China, enquanto Pequim tenta estabilizar a economia. O próprio Trump também suavizou seu discurso em relação à China, afirmando na quarta-feira que um acordo comercial era "possível" e reafirmando seu "ótimo relacionamento" com Xi.
No entanto, sua administração está repleta de figuras críticas em relação à China, incluindo a Representante Comercial Jamieson Greer e o Secretário de Estado Marco Rubio, ambos os quais prometeram confrontar a influência de Pequim no Mar da China Meridional.
Para a China, o pior cenário possível é uma coalizão no estilo da OTAN no Pacífico. Sob o governo Biden, os EUA fortaleceram os laços militares com o Japão e a Coreia do Sul.
A economia da Rússia parece estar se recuperando com o relaxamento das sanções
Para Moscou, o maior incentivo para as negociações de paz não é apenas a diplomacia, mas sim a economia. A Rússia passou os últimos três anos investindo pesado na produção bélica, transferindo trabalhadores para fábricas militares e lidando com a inflação crescente. O Kremlin minimizou publicamente as sanções, mas os números contam uma história diferente.
O PIB da Rússia cresceu 3,8% em 2024, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas esse número deverá cair para 1,4% em 2025, com a queda do consumo privado e dos investimentos. Até mesmo Putin admitiu que a economia estava "superaquecida", prevendo um crescimento de 2% a 2,5% no próximo ano.
Um acordo de paz poderia abrir caminho para um levantamento parcial das sanções, dando à Rússia acesso novamente aos sistemas financeiros ocidentais e aos mercados internacionais. Moscou tem dependido da China e da Índia para manter sua economia à tona, mas a possibilidade de exportar novamente para os EUA e a Europa seria um grande impulso.
Segundo Liam Peach, economista sênior da Capital Economics, as negociações podem provocar uma grande mudança nos mercados globais de energia.
“A decisão dos EUA e da Rússia de 'preparar o terreno' para pôr fim à guerra na Ucrânia marca uma virada potencialmente significativa após três anos de conflito”, disse Peach em nota na terça-feira.
Ele acrescentou que um acordo de paz poderia resultar em maiores exportações de gás natural russo e preços globais de energia mais baixos. No entanto, também observou que qualquer benefício econômico para a Europa — fora da Rússia e da Ucrânia — provavelmente seria limitado.
Mesmo que as sanções não sejam totalmente suspensas, a possibilidade de uma flexibilização parcial já está alterando as perspectivas econômicas da Rússia. Moscou poderia recuperar o acesso ao sistema financeiro dos EUA e aumentar as exportações de energia para a Europa, aliviando a pressão econômica.

