As vendas no varejo do Reino Unido perderam um pouco de fôlego em setembro, à medida que os consumidores cautelosos adiaram compras e se concentraram no essencial. Preocupações com o orçamento iminente do governo foram a causa da desaceleração, segundo novos dados do British Retail Consortium (BRC).
No geral, totais no varejo aumentaram 2,3% em setembro em comparação com o mesmo mês do ano passado — após um aumento de 3,1% em agosto e 2,5% em julho. As vendas em lojas abertas há pelo menos um ano, excluindo as recém-inauguradas, também caíram para 2%, ante 2,9%. Os varejistas afirmam que uma combinação de inflação, incerteza tributária e clima imprevisível freou os gastos.
Um quarto dos consumidores está aguardando o orçamento completo apresentado pela Ministra da Fazenda, Rachel Reeves, em novembro, segundo pesquisa. O novo governo busca um equilíbrio entre promover o crescimento e cumprir as promessas de investimento verde, ao mesmo tempo em que lida com uma dívida pública cada vez maior.
De acordo com Helen Dickinson, diretora executiva do BRC, a incerteza está claramente a ter um impacto na atividade das famílias.
As vendas em lojas de alimentos registraram um leve aumento, impulsionadas mais pela inflação do que pelo volume. Os consumidores estavam cada vez mais optando por marcas mais baratas ou comprando em quantidades menores, segundo a empresa tracde mercado do varejo da KPMG. Já as vendas de produtos não alimentícios, incluindo roupas e artigos para o lar, caíram acentuadamente — cerca de 0,7% em setembro, em comparação com 1,8% no mês anterior.
O clima excepcionalmente quente também afetou a demanda por itens de inverno, como casacos e botas. Os varejistas esperavam um aumento nas vendas mais cedo com as coleções de outono, mas os consumidores continuam esperando até que as peças estejam mais adequadas para a estação antes de renovarem seus guarda-roupas.
Lojas se preparam para um difícil "trimestre de ouro"
Agora, os varejistas estão entrando no chamado "trimestre de ouro" — os importantíssimos últimos três meses do ano, quando os lucros são impulsionados pelas compras de Natal. Mas a perspectiva é incerta.
A John Lewis Partnership Plc anunciou sua maior campanha de recrutamento sazonal de todos os tempos, contratando 13.700 trabalhadores temporários para suas lojas de departamento, armazéns e supermercados Waitrose. A empresa está bem posicionada para atingir suas metas de lucro para o ano todo, afirmou o presidente Jason Tarry, mesmo após registrar prejuízo no primeiro semestre.
Da mesma forma, a segunda maior rede de supermercados do Reino Unido, a J Sainsbury Plc, proprietária da Argos, vai contratar 19.000 trabalhadores temporários para lidar com o aumento das compras durante a temporada de festas de fim de ano. A gigante dos supermercados prevê um aumento expressivo nos pedidos online e nas visitas às lojas físicas em novembro e dezembro, mas alerta que os consumidores provavelmente continuarão exigentes.
Linda Ellett, diretora da área de Consumo, Varejo e Lazer da KPMG no Reino Unido, afirmou que os gastos continuam altamente direcionados, já que os consumidores permanecem cautelosos. Ela observou que os varejistas estão apostando em promoções e em linhas de produtos cuidadosamente planejadas paratracclientes e impulsionar as vendas no período que antecede o Natal.
As vendas de tecnologia apresentaram um ponto positivo, impulsionadas pelo lançamento dos novos modelos de iPhone e Apple Watch em meados de setembro. No entanto, outras categorias de bens de consumo não essenciais, como decoração para casa e vestuário, registraram um desempenho muito inferior.
Entretanto, a inflação dos preços no varejo subiu para 1,4% em setembro, ante 0,9% em agosto – o nível mais alto desde fevereiro, segundo dados da BRC. O aumento dos custos de importação e dos preços da energia continua a pressionar as margens de lucro.
As preocupações fiscais contribuem para a pressão sobre os varejistas.
Os varejistas também estão lidando com os potenciais efeitos ripple da proposta orçamentária de Reeves para novembro, além do impacto no consumo. O governo está considerando mudanças no imposto predial sobre imóveis comerciais — o imposto pago pelas lojas — que podem afetar desproporcionalmente as grandes lojas.
O BRC alertou que a introdução de uma nova faixa de impostos para grandes varejistas pode levar ao fechamento de lojas e à perda de empregos, principalmente entre as redes de lojas de departamento que já enfrentam dificuldades com os altos custos.
As pequenas empresas são especialmente vulneráveis. Algumas alertam que um novo aumento nos impostos sobre imóveis comerciais as levaria à falência. A Federação das Pequenas Empresas solicitou ao Tesouro que congele ou reduza a taxa no próximo ano fiscal, em um esforço para ajudar a impedir um maior declínio nas ruas comerciais da Grã-Bretanha.
Analistas do setor varejista afirmam que a atual desaceleração ilustra um delicado equilíbrio para os formuladores de políticas. Aumentos de impostos podem ameaçar corroer a já frágil confiança do consumidor, mas adiar reformas fiscais pode agravar o déficit orçamentário do Reino Unido.

