O retorno de Trump à Casa Branca em 2025 desencadeou novas tensões no cenário global, e o BRICS não está desperdiçando a oportunidade.
O bloco — originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — está aproveitando o vácuo de poder deixado pela política isolacionista dodentdos EUA para se reagrupar e demonstrar sua força.
Segundo a Bloomberg, os líderes do grupo ampliado, que agora inclui Egito, Etiópia, Irã, Indonésia e Emirados Árabes Unidos, estão reunidos neste fim de semana no Rio de Janeiro, com a presença do presidente brasileiro dent Inácio Lula da Silva, para finalizar uma declaração conjunta condenando “medidas protecionistas unilaterais injustificadas” e o “aumento indiscriminado” de tarifas.
Essa declaração não mencionará os EUA diretamente, mas o momento escolhido já diz tudo. O pronunciamento está agendado para pouco antes da entrada em vigor das novas tarifas comerciais de Trump, em 9 de julho, e o bloco claramente não deixará isso passar em branco. Essas tarifas, alertou Xolisa Mabhongo, principal negociadora da África do Sul, “não são produtivas”.
Eles não são bons para a economia mundial. Eles não são bons para o desenvolvimento.” Enquanto Trump retira os EUA de acordos comerciais globais e destrói alianças, o BRICS tenta reivindicar o espaçomatic que ele está deixando para trás. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse que eles estão trabalhando para “fortalecer a parceria estratégica do BRICS e salvaguardar o multilateralismo”
O BRICS amplia sua influência enquanto evita conflitos
Mesmo com esse novo impulso, o bloco ainda não pode se apresentar como uma força unificada. Xi Jinping não participará da cúpula, apesar de ter feito uma visita de Estado a Brasília no ano passado e de ser esperado na COP30, a cúpula climática que acontecerá no Brasil posteriormente.
Vladimir Putin também não comparecerá. Se comparecesse, o Brasil seria obrigado a prendê-lo devido a um mandado de prisão internacional em aberto por supostos crimes de guerra relacionados à Ucrânia.
O grupo original dos BRICS foi formado em 2009 para dar às grandes economias emergentes mais voz em um mundo liderado pelos EUA. Desde então, o grupo se expandiu rapidamente. A adição de cinco novos membros significa que o bloco agora representa cerca de 40% do PIB mundial e metade da população global. Mas esse crescimento teve um custo: a falta de clareza. Esses países não querem a mesma coisa e certamente não concordam sobre as mesmas questões.
Um dos temas mais sensíveis é a guerra. Delegados envolvidos nas negociações afirmam que a Rússia e a China estão bloqueando as tentativas de incluir qualquer referênciatronaos conflitos em curso. O Egito, por sua vez, está pressionando fortemente para incluir uma linguagem sobre paz e segurança focada na crise em sua fronteira com Gaza. Ninguém cede.
O comércio se intensifica enquanto as divergências se aprofundam
O comércio entre os cinco países fundadores do BRICS aumentou 40% desde 2021, totalizando agora US$ 740 bilhões por ano, segundo dados do Fundo Monetário Internacional. Esse aumento ocorre em um momento em que a pressão das políticas de Trump força os países a buscarem rotas comerciais alternativas. Dois representantes brasileiros afirmaram que as tarifas impostas por ele estão dando aos países membros um motivo para se unirem, pelo menos por enquanto, para construir novas parcerias e estratégias coletivas.
Um desses esforços é o financiamento climático. Pela primeira vez, o BRICS está discutindo como financiar iniciativas ambientais entre seus membros. Trump retirou os EUA do Acordo de Paris anos atrás, abrindo espaço para que outras potências assumissem a responsabilidade. A China está aproveitando a oportunidade para se posicionar como um parceiro mais consistente. Pequim já realizou negociações climáticas com o Brasil e a Indonésia antes da cúpula climática anual da ONU.
A Índia também parece disposta a seguir o exemplo. Um funcionário do governo familiarizado com as discussões afirmou que Narendra Modi não prevê nenhum obstáculo para uma declaração conjunta. Após a reunião no Rio, Modi seguirá para Brasília para uma visita de Estado. Lula também receberá Prabowo Subianto, da Indonésia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul, preenchendo sua agenda com diplomacia simbólica.
Ainda assim, as antigas divisões dentro do BRICS não desapareceram. Egito e Etiópia se recusaram a apoiar a candidatura da África do Sul a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, que costumava ser um dos poucos pontos em que o bloco concordava. Há também uma rivalidade persistente entre a China e a Índia. Ambos os países querem liderar o BRICS e falar em nome do Sul Global.
Com Modi assumindo a presidência do BRICS em 2026, apenas três anos depois de Xi ter faltado à reunião do G-20 na Índia, as tensões entre eles só tendem a aumentar. Se Xi voltar a ignorar o bloco, isso levantará ainda mais dúvidas sobre a seriedade do BRICS ou se ele é apenas um logotipo simpático.

