O secretário do Tesouro, Scott Bessent, solicitou formalmente ao Congresso a exclusão de uma cláusula controversa presente no mais recente plano orçamentário dodent Donald Trump.
A seção, conhecida como Seção 899, teria permitido aos EUA impor impostos adicionais a empresas e investidores de outros países, especialmente se esses países adotassem políticas tributárias severas em virtude de acordos internacionais.
Scott afirmou na quinta-feira que a regra deixou de fazer sentido, pois partes do regime tributário do Pilar 2 da OCDE não se aplicam mais às empresas americanas.
Segundo reportagem do Financial Times, Scott publicou no X que o Tesouro solicitou aos legisladores da Câmara e do Senado a remoção da seção do "Big, Beautiful Budget" (Grande e Belo Orçamento). A disposição foi originalmente concebida para retaliar os países que usam as regras de imposto mínimo global da OCDE para atingir as multinacionais americanas.
Trump sancionou a lei com a regra intacta, mas o clima econômico e político mudou. Scott afirmou que os EUA chegaram a um entendimento com os países do G7 após “meses de diálogo produtivo”, tornando desnecessária a parte da lei referente à retaliação.
O Tesouro abandona a aplicação do Pilar 2
O Pilar 2 fazia parte de um acordo de 2021, firmado durante o governo do ex-dent Joe Biden, que visava implementar uma alíquota mínima global de imposto corporativo de 15%. Esse acordo concedeu aos países o poder de arrecadar impostos adicionais caso as empresas multinacionais não estivessem pagando o suficiente em seus respectivos países.
Mas agora os EUA afirmam que essas regras não se aplicarão mais às empresas americanas, o que significa que outros países não poderão cobrar impostos delas sob o Pilar 2. Foi isso que levou Scott a se manifestar e pressionar pela revogação da Seção 899.
O imposto gerou alarme no setor financeiro. Grandes bancos e investidores alertaram que ele prejudicaria o investimento corporativo e causaria uma fuga de capitais dos EUA. Alguns chegaram a dizer que poderia tornar os EUA um local menostracpara o capital estrangeiro.
O Departamento do Tesouro tentou minimizar os danos excluindo os juros dos títulos do Tesouro dos EUA do escopo da medida, mas a disposição ainda se aplicava a dividendos, aluguéis e royalties, o que, segundo grupos do setor, prejudicaria os fluxos de investimento passivo.
Mesmo dentro do próprio partido de Trump, alguns republicanos na Câmara não estavam convencidos do imposto. Eles disseram na quarta-feira que a Seção 899 era muito arriscada e insinuaram que ela poderia ser retirada da versão final do projeto de lei. O anúncio de Scott deu a eles a justificativa necessária para se manifestarem publicamente. No momento, o Partido Republicano quer aprovar o projeto de lei antes de 4 de julho, data em que Trump pretende sancioná-lo para comemorar o Dia da Independência com uma vitória legislativa.
Wall Street faz forte lobby contra o imposto
O setor financeiro não se manteve em silêncio. Deixou claro que detestava o plano. Empresas de Wall Street alertaram que impor esse tipo de penalidade a investidores estrangeiros seria contraproducente.
Os EUA já haviam observado uma queda na demanda por títulos da dívida pública no início deste ano, e os investidores atribuíram a culpa ao plano de Trump de impor tarifas a quase todos os principais parceiros comerciais. Essa queda gerou sérias preocupações, especialmente porque o Tesouro precisaria emitir uma grande quantidade de títulos para financiar os gastos previstos no projeto de orçamento.
A ameaça da Seção 899 só piorou a situação. Grupos empresariais temiam que o imposto adicional desestimulasse o investimento estrangeiro direto e fizesse com que os investidores evitassem completamente os mercados americanos.
Um dos críticos mais veementes foi Jonathan Samford, CEO da Global Business Alliance, que afirmou: “É assim que se demonstra liderança. Optar pela força econômica em vez de oportunidades desperdiçadas, pelo investimento em vez do isolamento e pelos trabalhadores americanos em vez de aumentos de impostos equivocados.”
A mudança política foi rápida. Assim que Scott tornou pública a posição do Tesouro, o caminho para a revogação da Seção 899 ficou mais claro. Os republicanos da Câmara agiram rapidamente para se preparar para a votação final do pacote orçamentário mais amplo, que também inclui uma prorrogação dos cortes de impostos individuais de Trump de 2017 e novos incentivos fiscais destinados a atrair americanos de renda média, visando as eleições de 2026.
As partes inacabadas do acordo da OCDE — incluindo a ideia de substituir os impostos sobre serviços digitais por novas regras sobre a partilha de lucros entre países — já não parecem ser uma preocupação para a administração. Com o G7 a bordo e a fiscalização fiscal estrangeira a deixar de ser uma ameaça para as empresas americanas, a medida retaliatória perdeu a sua razão de ser.
Nas palavras de Scott, o novo entendimento com o G7 “proporciona maior certeza e estabilidade para a economia global” e “impulsionará o crescimento e o investimento nos Estados Unidos e em outros países”. Sua mensagem foi clara: os EUA não precisam de um imposto de vingança quando já negociaram uma saída para o conflito. Agora, cabe ao Congresso agir antes que os investidores estrangeiros se afastem ainda mais.
