A Nvidia, principal produtora de chips de inteligência artificial (IA), está no centro do impasse geopolítico, à medida que os semicondutores se tornam cada vez mais essenciais para a rivalidade entre os EUA e a China.
O retorno da empresa ao mercado chinês na semana passada, supostamente com a bênção de Washington, reacendeu o debate sobre as consequências estratégicas para ambas as nações.
Para os EUA, a presença contínua da Nvidia na China pode servir como uma alavanca estratégica para manter sua dominância em IA. Especialistas disseram à CNBC que manter as empresas chinesas dependentes de chips e softwares projetados nos EUA, especialmente a plataforma CUDA da Nvidia, amplamente utilizada, ajuda a consolidar a liderança global americana.
“Essa relação é simbiótica, mas acredito que a China precisa mais da tecnologia americana neste momento”, disse Daniel Newman, CEO do Futurum Group, em entrevista ao programa The China Connection, da CNBC.
Para a China, o retorno da Nvidia oferece uma oportunidade crucial para desenvolver ainda mais seu ecossistema nacional de semicondutores, ao mesmo tempo em que continua a aprimorar suas capacidades em IA.
A Nvidia obtém aprovação nos EUA para retomar as vendas do chip H2O na China
No início deste ano, os EUA endureceram as restrições à exportação do chip H20 da Nvidia — uma versão simplificada de seu principal produto, projetada para atender a requisitos de conformidade anteriores. Washington citou preocupações de que esses chips pudessem impulsionar o setor militar chinês ou a indústria de inteligência artificial desenvolvida internamente.
A medida obrigou a Nvidia a contabilizar uma baixa contábil de US$ 4,5 bilhões em estoques não vendidos e a alertar para impactos na receita que chegam a bilhões. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, criticou abertamente as restrições à exportação, argumentando que elas poderiam acelerar o desenvolvimento de chips no país e prejudicar a liderança tecnológica dos Estados Unidos.
"Seria uma perda enorme para nós não participarmos na China", afirmou Huang, acrescentando que, na ausência da Nvidia, empresas nacionais como a Huawei entrariam em cena para preencher essa lacuna.
Essa mensagem parece ter repercutido em Washington. A Nvidia confirmou na semana passada que recebeu aprovação do governo dos EUA para retomar as vendas de H2O para a China.
Embora a Nvidia esteja prestes a se beneficiar financeiramente, autoridades americanas afirmam que a medida também atende aos interesses nacionais.
Em entrevista à CNBC, Howard Lutnick, secretário de Comércio dos EUA, afirmou que o objetivo é manter o uso da tecnologia americana pelos chineses, pois eles ainda dependem dela.
A influência da Nvidia vai além do hardware. Sua plataforma de software CUDA tornou-se um pilar para desenvolvedores de IA, formando um ecossistema sólido que os concorrentes têm dificuldade em desbancar.
Pranay Kotasthane, vice-diretor da Takshashila Institution, observou que a reintrodução do H2O na China dá às empresas americanas uma folga, ao mesmo tempo que desacelera o ímpeto da China em direção à independência na produção de semicondutores.
“A China é o maior mercado da Nvidia e abriga 50% dos desenvolvedores de IA, segundo Jensen Huang. Se esse mercado fechar, ficará mais difícil para a Nvidia reinvestir em P&D”, disse Kotasthane.
O retorno da Nvidia à China ameaça comprometer as ambições locais em relação aos chips de IA
A Huawei continua sendo a líder chinesa no desenvolvimento de chips de IA, mas seu hardware ainda está atrás dos produtos de ponta da Nvidia. Enquanto isso, um número crescente de startups chinesas está correndo para produzir alternativas viáveis.
O acesso renovado da Nvidia ao mercado pode potencialmente frear esse ímpeto. Tejas Dessai, diretor de pesquisa da Global X ETFs, alertou que o acesso mais fácil aos chips da Nvidia pode desviar capital de projetos nacionais e atrasar a maturação de alternativas chinesas.
Dessai disse à CNBC que, se os chips da Nvidia forem disponibilizados para empresas chinesas, isso poderá enfraquecer o ímpeto dos projetos de chips nacionais, cortar o capital e atrasar o progresso do hardware na China.
Especialistas afirmam que a liderança da Nvidia não se resume apenas ao desempenho, mas também à usabilidade. Os desenvolvedores chineses continuam a preferir o ecossistema da Nvidia devido à sua flexibilidade e abrangência.
Paul Triolo, sócio da DGA-Albright Stonebridge Group, observou que os desenvolvedores de modelos chineses ainda preferem o hardware da Nvidia porque o ambiente de software da Huawei continua difícil de usar.
Ainda assim, a ambição da China de reduzir a dependência de tecnologia estrangeira permanece inalterada. Embora a Nvidia domine os chips usados para treinar grandes modelos de IA, as empresas chinesas podem encontrar oportunidades na inferência — o processo de execução de modelos de IA treinados, como chatbots e assistentes virtuais.
“No setor de chips, a oportunidade para a China pode surgir quando o foco mudar para a inferência”, disse Dessai. “É nesse momento que a demanda por processadores mais baratos e eficientes poderá aumentar, e os chips personalizados de empresas de tecnologia chinesas poderão entrar em cena.”
O retorno da Nvidia à China é mais do que uma decisão de negócios — é um cálculo geopolítico. À medida que a corrida armamentista da IA se intensifica, tanto Washington quanto Pequim tentam manter um delicado equilíbrio entre competição e dependência. A sustentabilidade dessa distensão dependerá da rapidez com que a China conseguir construir uma concorrente viável para a Nvidia — e de quanto tempo os EUA estiverem dispostos a manter a porta aberta.

