O primeiro-ministro Mark Carney deixou Washington na terça-feira sem um acordo comercial, mesmo após uma reunião de alto nível no Salão Oval com Donald Trump.
O encontro, que havia sido anunciado como uma oportunidade para redefinir as relações, terminou com sorrisos, declarações para as câmeras e nenhum alívio nas tarifas que sufocam as indústrias canadenses.
Trump chamou Carney de "um líder de classe mundial" e "um negociador implacável", mas o líder canadense voltou para casa de mãos vazias.
Trump disse: "Na verdade, avançamos muito nos últimos meses em termos de relacionamento. Acho que eles sairão dessa situação muito satisfeitos."
Carney, que elogiou o papel de Trump na política externa durante a reunião, ouviu odent responder: “Temos grande apreço um pelo outro. Temos um conflito natural”. A troca de palavras resumiu o estranho equilíbrio entre bajulação e tensão que tem defisuas relações desde que Trump retornou à Casa Branca.
Trump faz piadas enquanto o Canadá não consegue alívio tarifário
Os repórteres pressionaram Trump sobre o motivo de o Canadá ainda não ter chegado a um acordo, enquanto a União Europeia já havia alcançado um. Trump desconversou, dizendo: "Porque eu também quero ser um grande homem", o que provocou risos na sala. Os comentários foram descontraídos, mas deixaram a questão fundamental sem resposta.
Carney arriscou uma reação política negativa em seu país ao comparecer sem obter nenhuma concessão, já que as tarifas sobre o aço, alumínio, automóveis, cobre e madeira serrada canadenses permanecem em vigor. As tarifas retaliatórias de 25% do Canadá sobre o aço e o alumínio dos EUA também continuam em vigor.
A recepção na Casa Branca correspondeu ao que o gabinete de Carney havia previsto: uma sessão destinada a gerar progresso, e não a fechar um acordo. Mas o custo interno está aumentando.
Carney venceu as eleições de abril com a promessa de enfrentar Trump e proteger a economia canadense da disputa tarifária. Meses depois, o Canadá continua sendo o único membro do G7 que não conseguiu um acordo para reduzir as tarifas.
O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, disse a repórteres em Toronto: “Precisamos revidar com força. Ninguém fica parado apanhando de um valentão todo santo dia. É como uma criança que vai para o pátio da escola e leva um soco na cara todos os dias.”
Ford acrescentou: "Talvez o primeiro-ministro Carney saiba algo que eu não sei. E se for esse o caso, ele deveria se reunir com os governadores estaduais e explicar isso."
O diretor do sindicato United Steelworkers do Canadá, Marty Warren, fez seu próprio alerta, dizendo: “Precisamos de ação urgente — não de mais concessões. A indústria madeireira de coníferas do Canadá está à beira do colapso.”
Carney se volta para a revisão do USMCA enquanto Trump revive antigas linhas de argumentação
Carney direcionou parte do seu foco para a revisão obrigatória do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) prevista para 2026. Cerca de 85% das exportações canadenses são isentas de tarifas sob o acordo atual, o que lhe oferece mais uma via para defender sua posição.
Trump indicou que pode considerar um acordo bilateral com o Canadá, dizendo: "Podemos fazer acordos diferentes se quisermos. Quero fazer o melhor acordo possível para este país, e também tendo o Canadá em mente."
Apesar de meses de trocas mais amistosas, Trump não abandonou suas provocações. Na semana passada, ele voltou a chamar o Canadá de "51º estado" ao discursar para generais americanos.
E quando Carney tentou elogiar os esforços de Trump em conflitos estrangeiros, incluindo Índia e Paquistão, Armênia e Azerbaijão, e Gaza, Trump o interrompeu com: "A fusão do Canadá com os Estados Unidos?". Carney respondeu prontamente: "Não! Não era esse o meu ponto", antes de rir da situação.
Não era a primeira vez que eles abordavam o assunto. Em maio, durante o primeiro encontro no Salão Oval, Carney disse a Trump sem rodeios: “O Canadá não está à venda. Nunca estará à venda”. Trump respondeu: “Nunca diga nunca”, mas deixou para lá.
Carney conseguiu evitar os rompantes que marcaram os confrontos de Justin Trudeau com Trump durante o governo anterior. Trudeau havia chamado as tarifas de "muito estúpidas" e acusado Trump de estar do lado de Vladimir Putin.
Carney, por outro lado, manteve contato constante por meio de ligações e mensagens de texto, evitando que as tensões se agravem. Ainda assim, com as tarifas surtindo efeito e sem avanços em Washington, a relação parece mais frágil do que nunca. Trump encerrou a reunião prevendo: "Acho que o povo do Canadá voltará a nos amar"

