A comunidade gamer se vê novamente envolvida em um debate acalorado, desta vez não sobre Tokens Não Fungíveis (NFTs), mas sim sobre a indignação causada pelo uso de vozes geradas por IA no aguardado jogo de tiro em primeira pessoa, The Finals, por diversos dubladores da indústria. A causa dessa indignação surgiu após declarações de Andreas Almström, diretor de áudio da Embark Studios, empresa responsável por The Finals, durante um episódio do podcast Meet the Makers.
O diretor de áudio das finais apoia o uso de IA
Andreas Almström revelou abertamente que uma parte significativa das vozes no jogo The Finals foi gerada por meio de tecnologia de IA de conversão de texto em fala, incluindo as vozes dos competidores, latidos e comentaristas. Almström explicou o raciocínio por trás dessa estratégia, enfatizando as notáveis capacidades da IA de conversão de texto em fala. Ele destacou sua capacidade de manter a qualidade e, ao mesmo tempo, facilitar a rápida adaptação a novas ideias, permitindo que o conteúdo permaneça atualizado e altamente responsivo.
A integração da IA generativa teve um impacto profundo em diversos setores, incluindo o de jogos. A Blizzard Entertainment anunciou anteriormente sua exploração da IA no desenvolvimento de jogos para otimizar processos e redirecionar a atenção para aspectos mais cruciais. No entanto, a implementação da IA no universo dos jogos gerou controvérsias. Em junho, a Steam, uma das principais plataformas de jogos e também responsável pela final do Super Bowl, rejeitou o jogo de um desenvolvedor devido a preocupações com o uso de conteúdo gerado por IA, citando possível semelhança com material protegido por direitos autorais.
De forma semelhante, a desenvolvedora de Myst, Cyan Worlds, enfrentou críticas no mesmo mês, quando usuários notaram o uso de IA em seu novo lançamento, Firmament. O blogueiro de jogos Gregory Avery-Weir chamou a atenção para a ausência de reconhecimento de voz dos personagens nos créditos do jogo, expressando insatisfação com a dependência de conteúdo gerado por IA e levantando preocupações sobre um possível plágio. As revelações feitas por Almström provocaram uma rápida reação negativa de diversos dubladores, que prontamente recorreram ao Twitter para expressar suas críticas.
Perspectivas e debates na comunidade de jogos
Paxson Helgesen, dublador e designer de som sênior da Bungie, instou os desenvolvedores a reconsiderarem o tratamento da dublagem como apenas mais um "recurso" no processo de desenvolvimento ágil, enfatizando seu papel crucial no cenário dos jogos. Outro dublador, Gianni Matragrano, expressou consternação com a ideia de usar IA para gerar vozes de personagens, questionando o julgamento profissional de especialistas em áudio que endossam tais práticas.
Matragrano sugeriu que a decisão de adotar conteúdo gerado por IA pode derivar de um desejo de substituir criadores humanos, em vez de um compromisso em fornecer conteúdo de alta qualidade para jogadores pagantes. No entanto, nem todos os dubladores compartilham as mesmas preocupações em relação ao surgimento da IA na indústria de jogos. Alguns, como Ben Prendergast, conhecido por dar voz a Fuse em Apex Legends, permanecem tranquilos, reconhecendo as possíveis consequências, mas expressando confiança em sua experiência em narrativa, interpretação de personagens e compreensão das reações do público em comparação com o conteúdo gerado por IA.
Curiosamente, a IA, em certos cenários, serve como um meio de preservar a essência das vozes humanas em um projeto. Recentemente, a CD Projekt Red (CDPR) obteve a autorização da família do falecido ator polonês Miłogost Reczek para usar sua voz em conjunto com a plataforma Respeecher para recriar e gravar novos diálogos para o personagem Viktor Vektor em Cyberpunk 2077 e Phantom Liberty, após o falecimento de Reczek em 2021. No entanto, é importante ressaltar que o projeto contratará um dublador para emular o estilo de fala de Reczek antes de ajustar as gravações com o algoritmo do Respeecher.
Um representante da CD Projekt Red reconheceu o apoio recebido dos filhos de Reczek, permitindo que eles prosseguissem com o projeto. O debate em curso sobre o uso de vozes em videogames como The Finals destaca uma tensão fundamental entre aproveitar os avanços tecnológicos para obter eficiência e preservar a autenticidade e o talento artístico proporcionados pelos criadores humanos no universo dos jogos. Essa evolução no desenvolvimento de jogos traz à tona um dilema, à medida que a indústria busca o equilíbrio entre o progresso tecnológico e a preservação das contribuições criativas humanas.

