Nas últimas semanas, houve um aumento no número de sequestros ligados à comunidade cripto na capital francesa, Paris. O mais recente foi a tentativa de sequestro de familiares do cofundador da Paymium, Pierre Noizat, na terça-feira.
A situação de sequestro, que foi agravada pela tentativa de terça-feira, levou o ministro do Interior francês, Bruno Rataileau, a anunciar uma reunião com especialistas em criptomoedas para discutir os próximos passos.
Segundo relatos, a maioria desses sequestros ocorre porque os criminosos esperam receber o resgate pelas vítimas. No entanto, Alexandre Stachtenko, diretor de estratégia da corretora francesa de criptomoedas Paymium, criticou a forma como as informações relacionadas a transferências de criptomoedas devem ser coletadas de acordo com as normas da União Europeia, chamando-a de "bomba-relógio".
Paris sequestra e pede segurança para dados criptografados
Segundo Stachtenko, o método atual é arriscado e um único vazamento pode colocar pessoas em perigo. "Se houver um vazamento de um desses bancos de dados, a partir dos quais eu posso descobrir quem tem dinheiro e onde mora, no dia seguinte a informação estará na dark web e, no dia seguinte, alguém estará na porta da sua casa", disse ele.
O executivo insinuou que os usuários de criptomoedas não estão seguros, pois basta uma violação de segurança na plataforma para que seus dados caiam nas mãos de pessoas mal-intencionadas.
O roubo de dados é algo que vem acontecendo no mercado de criptomoedas há anos, sendo o caso mais recente relacionado à popular corretora de criptomoedas Coinbase. A corretora relatou que criminosos subornaram e enganaram seus usuários para roubar seus ativos digitais.
A corretora acrescentou ainda que os criminosos pediram suborno para que o crime não fosse descoberto. No entanto, em vez de pagar, a Coinbase informou os órgãos reguladores sobre o crime e planeja gastar entre US$ 180 milhões e US$ 400 milhões para reembolsar os usuários afetados.
Após a tentativa de sequestro, a Paymium também divulgou um comunicado instando as autoridades a garantirem a proteção das empresas do setor. A plataforma destacou ainda a tendência preocupante de atividades semelhantes ocorrendo em diferentes locais desde o início do ano. Fundada em 2011, a Paymium também citou "os aspectos extremamente perigosos de certas regulamentações financeiras, sejam elas recentemente adotadas ou em fase de elaboração".
“Com a organização semdentda coleta massiva e, por vezes, desproporcional de dados pessoais, as autoridades públicas contribuem para colocar em risco a segurança física de milhões de detentores de criptomoedas na França e, de forma mais ampla, na Europa”, acrescentou a plataforma.
O comentário se referia às regras que entraram em vigor no final de 2024, as quais estenderam a Regra de Viagem, já vigente para transferências financeiras tradicionais, a fim de incluir ativos digitais.
Regulamentos europeus de combate à lavagem de dinheiro visam restringir criptomoedas e carteiras de privacidade
Segundo Stachtenko, um aspecto da Regra de Viagem que o preocupa é a divulgação do endereço da carteira de criptomoedas do usuário, que contém detalhes de suas contas e transações. Ele acrescentou que dados sensíveis como esses às vezes são armazenados ou trocados de forma insegura, colocando o titular em risco. No entanto, Sarah Compani, advogada especializada em ativos digitais, mencionou que essas mudanças regulatórias são adotadas para coibir atos ilícitos no setor de criptomoedas.
Entretanto, a nova lei europeia contra a lavagem de dinheiro, que entrará em vigor em 2027, restringirá o uso de carteiras e ativos digitais que permitam o anonimato do titular. Essa medida surge após a França anunciar uma lei semelhante, que visa combater o narcotráfico, com foco em dispositivos de anonimato como misturadores de criptomoedas, usados para ocultar a origem dos fundos.
No entanto, o analista de cibersegurança Renaud Lifchitz mencionou que existem muitos "interesses legítimos" em se ter essas ferramentas.
Ele acrescentou que essas ferramentas às vezes são benéficas para muitas partes legítimas interessadas, como jornalistas ou ativistas que se opõem a um regime autoritário que controla o sistema bancário tradicional. Enquanto isso, os sequestros recentes podem ser explicados por um setor de criptomoedas "um tanto elitista" e "mal preparado". Desde 2014, o desenvolvedor de software Jameson Lopp disse ter registrado pelo menos 219 ataques físicos contra usuários de criptomoedas.

