A China está mergulhando cada vez mais na deflação, e isso não é mais um problema apenas de Pequim — é um problema de todos. Os preços vêm caindo há seis trimestres consecutivos. Mais um, e a China iguala o triste recorde da crise financeira asiática da década de 1990.
Mas não é como se Pequim estivesse parada sem fazer nada. Os formuladores de políticas estão tentando resolver o problema, mas nada parece estar surtindo efeito. E enquanto Donald Trump se prepara para retornar à Casa Branca com promessas de esmagar as exportações chinesas com uma tarifa de 60%, as coisas estão prestes a piorar ainda mais.
Afinal, o que é deflação? Bem, basicamente, é quando os preços em geral não apenas sobem lentamente ou estagnam, mas caem drasticamente. Não se trata de uma simples "redução da inflação". É uma retração econômica completa, onde a queda dos preços leva os consumidores a acumularem cash em vez de gastá-lo.
Por que a deflação na China parece imparável
Ao contrário dos EUA, onde as pessoas correram para gastar após o levantamento das restrições da COVID-19, os consumidores chineses permaneceram cautelosos. Há um motivo para isso. A crise imobiliária na China não afetou apenas os compradores de imóveis — abalou a todos.
Compras de alto valor? Esqueça. Os consumidores estão segurando seu dinheiro, esperando que os preços caiam ainda mais. Mas esse não é o único fator que está arrastando a China para a deflação. O governo reprimiu setores de alta remuneração, como tecnologia e finanças.
Seguiram-se demissões e cortes salariais, e as pessoas pararam de gastar. Além disso, a China impulsionou a produção industrial e o desenvolvimento de tecnologias avançadas, inundando o mercado com produtos que ninguém queria comprar. As empresas não tiveram outra opção senão reduzir drasticamente os preços.
O problema é o seguinte: a queda dos preços não ajuda a economia. Quando as pessoas acham que os preços vão continuar caindo, elas param de comprar. E quando as pessoas param de comprar, as empresas lucram menos, o que leva a demissões e cortes de preços ainda maiores.
Os economistas da Bloomberg chamam isso de "deflação da dívida", onde o aumento das taxas de juros ajustadas pela inflação torna ainda mais difícil o pagamento da dívida. É um ciclo vicioso do qual é impossível escapar sem uma intervenção agressiva.
Pequim sabe disso, mas tem sido excepcionalmente cautelosa. Após a pandemia, a China não retomou sua antiga estratégia de grandes projetos de infraestrutura e especulação imobiliária.
Odent Xi Jinping está focado em tecnologia avançada e crescimento sustentável. Embora isso soe bem na teoria, significa que não haverá grandes injeções de dinheiro para resolver a situação.
Pequim tem um plano?
O Banco Popular da China tentou reduzir as taxas de juros diversas vezes nos últimos dois anos, na esperança de estimular o consumo. Não está funcionando. Restrições ao mercado imobiliário foram flexibilizadas, os valores de entrada para financiamento foram reduzidos e as taxas de juros dos financiamentos imobiliários foram cortadas para reativar o setor. Mas nada disso interrompeu a espiral descendente.
Os bancos foram instruídos a conceder mais empréstimos às construtoras para que estas possam concluir projetos paralisados. Os governos locais foram até mesmo solicitados a comprar apartamentos não vendidos e transformá-los em moradias populares. Enquanto isso, o governo central lançou um programa de US$ 1,4 trilhão para ajudar os governos locais a gerenciar suas dívidas.
Além disso, a China tentou distribuir subsídios para carros e eletrodomésticos. Famílias de baixa renda edenttambém receberam algum auxílio. Mesmo assim, os economistas não estão convencidos de que isso seja suficiente. O mercado imobiliário ainda está um caos e a confiança do consumidor está em baixa.
E quanto aos números? A China utiliza três indicadores principais para medir a deflação. Primeiro, o índice de preços ao consumidor (IPC), que tracos gastos das famílias, atingiu o menor nível em cinco meses em novembro. Depois, há o índice de preços ao produtor (IPP), que mede os preços industriais — e que vem caindo há mais de dois anos.
Por fim, temos o deflator do PIB, que analisa as variações de preços em toda a economia. E os resultados também não são nada animadores.
Os produtos que estão fazendo os preços caírem
O transporte é um dos maiores fatores que pressionam os preços ao consumidor atualmente. Os preços dos carros estão caindo, e até mesmo os preços da gasolina estão mais baixos. Montadoras como a BYD estão em pânico total, pedindo aos fornecedores que reduzam custos para se manterem competitivas. O resultado? Uma guerra de preços declarada no mercado automotivo chinês.
O setor imobiliário é outro grande problema. O mercado habitacional está saturado de apartamentos não vendidos, e não há solução rápida para isso. O setor manufatureiro está igualmente em situação crítica. O esforço da China para aumentar a produção criou um excesso de mercadorias que ninguém está comprando. É a lei básica da oferta e da procura — só que, neste caso, a oferta está vencendo e destruindo a economia.
Além disso, há a já esperada guerra comercial com os Estados Unidos. Trump ameaçou impor uma tarifa adicional de 10% sobre todas as importações chinesas assim que assumir o cargo no próximo mês. Se essas tarifas forem implementadas, o crescimento das exportações da China — um de seus poucos pontos positivos — sofrerá um grande baque.
Quem investe em ações chinesas está sentindo o impacto da queda nos lucros corporativos. Montadoras de carros de luxo e marcas de alto padrão que dependem dos consumidores ricos da China? Suas vendas estão despencando.
Por outro lado, o mercado de títulos da China está indo muito bem. Títulos do governo de baixo risco estãotracinvestidores que esperam ainda mais cortes nas taxas de juros por parte do Banco Popular da China. Mas isso dificilmente é uma boa notícia. O panorama econômico geral é sombrio, e o boom do mercado de títulos é apenas um sintoma de um problema maior.

