Ursula von der Leyen, a presidente da União Europeia, fará hoje seu discurso anual sobre o Estado da União, apresentando as prioridades da União Europeia para o próximo ano. Ela discursa em meio a intensa pressão política após um verão marcado por reações negativas ao acordo comercial proposto pelodent dos EUA, Donald Trump.
No ano passado, ela foi reeleita para um segundo mandato, mas a presidente dent Comissão Europeia agora enfrenta um delicado equilíbrio . Por um lado, ela não quer parecer irrealista em termos de liderança e unidade. Por outro, precisa prestar contas aos legisladores, às empresas e aos eleitores que acreditam que o acordo com os EUA prejudicou a Europa.
Ursula von der Leyen discursará em Estrasburgo às 9h, proferindo um discurso que, tradicionalmente, define a direção política do bloco. Ela deverá enfatizar a defesa da Europa, exigindo novos investimentos e uma coordenação mais estreita em um contexto de crescente insegurança global. Além da segurança, ela se concentrará em aumentar a competitividade econômica do continente para enfrentar o crescente desafio da China e proteger os empregos europeus.
Ela defende uma abordagem mais incisiva em relação à Ucrânia, com apoio financeiro e militar contínuo, ao mesmo tempo que pressiona por sanções maistroncontra a Rússia. Além dessas prioridades, segundo autoridades, ela quer destacar o progresso nas políticas climáticas e na transição digital, e projetar a UE como um país verde e tecnologicamente avançado.
No entanto, a questão mais urgente para os líderes empresariais será se ela conseguirá implementar medidas concretas para reduzir a burocracia e pôr em prática o plano de competitividade do ex-presidente do BCE, Mario Draghi.
Acordo comercial gera reação negativa na UE
O acordo tarifário que ela firmou com Trump em julho, no resort de golfe Turnberry, na Escócia, lançou uma sombra significativa sobre seu discurso. Nesse acordo, as tarifas da UE sobre produtos industriais americanos foram abolidas e as barreiras de mercado para produtos agrícolas dos EUA foram reduzidas. Em retaliação, Trump impôs uma taxa de 15% sobre a maioria dos produtos da UE, eliminando as tarifas baixas ou nulas que existiam antes de seu segundo mandato.
A reação na Europa foi furiosa. Foi um "ato de submissão" e "outra forma de escravidão", disse o ex-primeiro-ministro francês François Bayrou. Uma pesquisa publicada esta semana revelou que 77% das pessoas nos cinco maiores países da UE acreditam que o acordo favorece os Estados Unidos. Apenas 2% dizem que é bom para a Europa. Mais da metade afirmou que apoiaria o boicote a produtos americanos, enquanto os demais desejam a saída de Ursula von der Leyen.
Autoridades europeias defenderam o acordo como um compromisso necessário que evitou uma guerra comercial destrutiva. Diz-se que as empresas queriam segurança, especialmente porque as garantias de segurança dos EUA ainda são vitais para a defesa da Europa.
Mas existe uma ampla oposição dentro do Parlamento. Socialistas e Verdes acusam Von der Leyen de ceder à pressão de Washington. Até mesmo alguns membros do Partido Popular Europeu, de centro-direita, seu próprio partido, manifestaram preocupação.
Alberto Alemanno, professor de Direito da UE na HEC Paris, afirmou que von der Leyen estava sendo usada como bode expiatório. Ele argumentou que, embora ela personificasse as fragilidades da UE, essas falhas não eram dela. Segundo ele, ela não poderia, sozinha, retaliar contra os Estados Unidos, responder de forma decisiva ao conflito em Gaza ou mediar a paz na Ucrânia.
Von der Leyen luta para restaurar a confiança
O discurso sobre o Estado da União será acompanhado de perto em toda a Europa. Para von der Leyen, é uma oportunidade para redefinir a agenda política e angariar apoio num momento em que crescem os sinais de descontentamento público.
Ela destacará o papel global da UE, seu papel na defesa da Ucrânia e até mesmo sua participação na definição de regras comerciais e climáticas. No entanto, com o acordo de Trump ainda dominando as notícias, a questão é se sua mensagem conseguirá restaurar a confiança.
Seguir-se-á o seu discurso no Parlamento. Os mercados, os grupos industriais e os aliados noutros países estarão à procura de indicações sobre a forma como a UE planeia lidar com as guerras, o comércio e a concorrência internacional.
Este poderá ser o discurso sobre o Estado da União mais desafiador de von der Leyen até agora.

