De acordo com um relatório recente da Chainalysis, a América do Norte lidera o mundo em atividade com criptomoedas. De julho de 2022 a junho de 2023, os Estados Unidos, juntamente com o Canadá, acumularam mais de US$ 1 trilhão em volume de transações, representando quase um quarto do mercado global de criptomoedas. No entanto, essa suposta "liderança" traz consigo uma série de desafios e questionamentos consideráveis, e talvez não seja o triunfo que possa parecer inicialmente.
A ilusão de saúde do mercado impulsionada por grandes transferências
Notavelmente, o relatório destaca que o boom das criptomoedas na América do Norte é impulsionado principalmente por investidores institucionais. Cerca de 76,9% do volume de transações nessa região consistiu em transferências superiores a US$ 1 milhão. Embora à primeira vista isso possa parecer um indicativo de um mercado robusto, levanta algumas questões críticas. Principalmente, esse tipo de atividade econômica é benéfico para o mercado como um todo ou atende apenas a um seleto grupo de pesos-pesados do mercado financeiro?
Além disso, essa concentração de transações de criptomoedas entre investidores institucionais demonstra uma preocupante falta de diversidade na participação de mercado. À medida que esses grandes players continuam a dominar, os riscos associados à manipulação de mercado e à desigualdade financeira aumentam. Curiosamente, após o colapso da exchange FTX e a subsequente investigação criminal de seu ex-CEO, Sam Bankman-Fried, o mercado de criptomoedas na América do Norte sofreu um impacto previsto. No entanto, vale ressaltar que esse impacto foi comparativamente menos severo do que o abalo que o setor sentiu após a crise bancária de março de 2023, que levou ao fechamento de bancos favoráveis às criptomoedas, como o Silicon Valley Bank.
Redução do uso de stablecoins
Além disso, o relatório observa um declínio considerável no uso de stablecoins na América do Norte, de 70,3% para 48,8% no último ano. Isso representa o ponto mais baixo para a capitalização de mercado do setor em mais de dois anos. Uma razão plausível para isso é o rigoroso escrutínio regulatório a que as stablecoins têm sido submetidas. Consequentemente, mais da metade de todas as stablecoins agora são negociadas em corretoras não licenciadas nos EUA.
Essa mudança evidencia o crescente desconforto global com astrontáticas regulatórias empregadas por agências americanas. A aparente intenção por trás dessa supervisão é estabelecer os EUA como um centro para negócios de criptomoedas, ampliando assim o alcance do dólar americano na economia digital. Contudo, o resultado parece ser justamente o oposto: empresas estão buscando ativamente jurisdições com ambientes regulatórios mais favoráveis.
O papel cada vez menor dos protocolos descentralizados
Além disso, é essencial destacar que o domínio da América do Norte sobre o volume global de finanças descentralizadas (DeFi) está diminuindo. Embora a região já tenha dominado esse setor, a participação dos protocolos descentralizados no volume total de transações diminuiu. Em junho, a atividade on-chain nos EUA e no Canadá estava dividida quase igualmente entre DeFi e exchanges centralizadas. Esse declínio no entusiasmo por protocolos descentralizados sinaliza um retrocesso para a visão inicial das criptomoedas — criar um sistema financeiro livre das garras das instituições centralizadas.

